sábado, 27 de agosto de 2016

77 - "Eu entrei em trabalho de parto há 17 horas, Javier"







Assim que a contração se desvaneceu, Ana sentiu o ar abandonar os seus pulmões.
Engoliu em seco, ciente de que o seu parto acabara de se iniciar.
- Calma… - murmurou para si mesma – Pode ter sido apenas uma contração falsa mais intensa – tentou convencer-se, mesmo que soubesse bem que não passava de uma ilusão. Ela sabia bem que daquela vez era a sério. Ainda assim, sentou-se no sofá calmamente e aguardou de relógio na mão.
35 minutos depois uma nova contração retirou-lhe o ar.
- Mierda… - sussurrou com uma pontinha de pânico a assolá-la.
Olhou o relógio: 10h40.
O jogo era às 21h15, o que significava que Javi chegaria perto da uma da madrugada.
17 horas. 17 horas era pouco para um primeiro parto, pensou.
Lembrava-se perfeitamente de ouvir a sua mãe relatar-lhe os seus longos partos. Quando Adriana nascera o seu parto durara 26 horas e mesmo com Simão tivera de esperar 18 horas.
17 horas era o suficiente, tentou mentalizar-se. Para além disso, as suas contrações ainda estavam muito espaçadas.
Não queria ligar a Javier e contar-lhe. Era um dia muito importante para ele. Era a grande oportunidade para voltar a pisar os relvados. E ele merecia-o tanto. Após oito meses, Javi não podia perder aquela chance. Dificilmente iria ter uma possibilidade tão boa como aquela para jogar antes do final da época. A equipa liderava com confiança, estava a golear, iria jogar em casa com uma equipa muito frágil… Havia 99% de hipóteses de Javi entrar e jogar alguns minutos.
E era muito especial. O estádio estava completamente lotado, dada a loucura de final de campeonato. Javi merecia uma ovação de pé ao voltar a entrar em campo. Não podia contar-lhe que entrara em trabalho de parto. Ele iria deixar o centro de estágio no exato momento que ela lhe dissesse que tivera uma contração.
Iria trocar o culminar do seu regresso por um dia a dar-lhe a mão enquanto ela dilatava. Não fazia sentido nenhum.
Para além disso, mesmo que Javier estivesse em casa, ela não iria imediatamente para o hospital. Sabia bem que o trabalho de parto era demorado. Se as águas não rebentassem, ela podia ficar tranquilamente em casa até que as contrações começassem a aumentar de intensidade e frequência.
- Nós estamos bem, não é? – disse acariciando levemente a sua barriga – Vamos ver o que a internet diz sobre comer durante o trabalho de parto!

***

13h

Ana terminava de comer o seu almoço. Algo muito leve e bastante digesto como ela lera na internet.
Aproveitara para dormitar entre contrações, algo que nunca pensara ser capaz. Começara a apontar as horas e duração das suas contrações.
A última fora há 10 minutos atrás e durara cerca de 20 segundos. Naquele momento chegavam com um intervalo de cerca de 30 minutos.
O seu telemóvel tornou a tocar. Esquecera-se de devolver a chamada de Javier. Ele ligara-lhe a meio da sua contração o que a impossibilitara de atender a chamada. Entretanto com a pressa de apontar os tempos e horas da contração, esquecera-se completamente de ligar a Javier.
- Hola!
- Hola! Está tudo bem? Não me atendeste – disparou Javier preocupado.
- Sim, estou ótima. Não estava com o telemóvel por perto e não ouvi – mentiu.
- E como tem sido o teu dia? Tranquilo? Tens tido muitas contrações falsas?
- Não, nem muitas. Tem sido um dia calmo – tornou a mentir, preocupando-se até pela forma fácil como conseguia fazê-lo – E tu? Entusiasmado?
- Bastante. O mister já me disse que conta em dar-me alguns minutos dependendo do resultado. Quanto mais confortável for o resultado, mais minutos posso ter.
- Então espero que saiam para intervalo a ganhar por 5 – desejou Ana.
- É… Seria ótimo. Tenho muitas muitas ganas de voltar a jogar. Mas queria mais do que uma substituição em cima dos 90. Queria dar uns toques, sabes? Tenho saudades.
- Eu sei, Javi. Esta vai ser a tua noite – disse com confiança e um sorriso imenso. Sentia-se profundamente feliz por ele, uma felicidade tão pura que até Inés era capaz de senti-la. Estava irrequieta. Bem, talvez fosse só a sua vontade de ver o mundo.
- Ligo-te mais tarde, está bem, guapa?
- Vale. Até logo.
- Até logo.

***

17h

Ana suspirou.
Sentia-se muito desconfortável. As contrações estavam a tornar-se cada vez mais longas, mais frequentes e sobretudo mais dolorosas.
Olhou para as suas anotações, tentando encontrar-se entre frequências e durações.
Decidiu que esperaria por uma nova contração para depois tomar um duche rápido. Estava a precisar de relaxar o seu corpo e a sua mente.
Naquelas horas o medo crescera. Antes estava mais calma, provavelmente por ser apenas o início do parto. Mas agora já havia passado 7 horas e ela continuava sozinha.
Ponderara ligar a Adriana, mas desistira de imediato da ideia. Ela iria levá-la de imediato para o hospital e Javi viria a correr. E isso era a última coisa que Ana queria. Sentir-se-ia desumanamente egoísta em retirar aquele momento de Javier, mesmo que soubesse que ele não pensaria dois segundos nisso.
Sabia que nem se Javier estivesse a horas de ser titular na final da Champions League ou do Mundial, ficaria em concentração. Iria vir a correr, esquecendo até as implicações que isso teria para a equipa e as penalizações que iria receber. Mais do que tudo, Javi queria estar presente no parto de Inés.
Naqueles meses de recuperação, voltar a jogar, pisar o relvado, entrar em campo era sem dúvida uma motivação extrema, mas o que realmente lhe recarregava forças nos momentos mais difíceis e o fazia acreditar na recuperação dia após dia era pensar no nascimento de Inés, de imaginar o momento em que teria nos braços, nos seus braços, nos braços que ele recuperara, assente nas pernas que ele voltara a mexer.
Havia tempo para tudo, pensou Ana, havia tempo para tudo.


***

19h

Ana olhava para o cronómetro com desespero, tentando prever o fim da contração.
Deixou escapar um suspiro pesado assim que a dor se desvaneceu como uma onda que acabava de chegar à costa depois de rebentar. Estava de joelhos em frente ao sofá curvada sobre si mesma. Mexera-se ao longo da contração tentando encontrar uma posição menos dolorosa. Apesar de não ter realmente encontrado o que procurava, tinha-se sentido mais confortável daquela forma. Apontou novamente os tempos na sua folha agora já bem cheia.
Estava física e mentalmente exausta. No início as contrações tinham-lhe parecido suportáveis, mas ao longo da tarde tinham-se tornado bem dolorosas. Era verdade que a situação não ajudava. A carga de medo e ansiedade que a fustigavam em nada abonavam.
Não parava de fazer contas, tentando prever a hora do seu parto, tentando ter a certeza que dava tempo para Javi chegar e os levar para o hospital.
Pesquisara até formas de abrandar o parto, mas em vão. Devia ser a primeira grávida do mundo a tentar desacelerar o seu trabalho de parto!
Perdera a conta às vezes em que pensara ligar a Javier. Pensava muito nisso de cada que tinha uma contração. Nisso e na epidural… Não via a hora de chegar ao hospital e lhe tirarem as dores. Naquele momento a epidural era como uma miragem no deserto.
Mas não podia fazê-lo… Durante a tarde tinha alternado entre canais desportivos. Javi era destaque. Comentadores falavam dele, adeptos falavam dele, jornalistas falavam dele… Era o tão aguardado regresso. Javier desejara-o tanto, tal como os seus colegas, os seus médicos, os seus adeptos. Era a noite. Toda a gente o sabia…
Os pensamentos de Ana foram interrompidos pelo toque do seu telemóvel. Era Javier.
Olhou para o cronómetro: tinha tempo.
Respirou fundo e atendeu.
- Hola, hola, campeón!
- Hola, mi reina. Então como estás?
- Eu estou ótima. Estou a ver o que dizem sobre ti na televisão.
- É, a minha mãe também me ligou. Eles vão a caminho do estádio. E nós também vamos sair daqui a pouco.
- Aposto que estão ansiosos por te ver.
- Tenho pena de não poderes estar cá.
- Eu também, Javi. Mas já sabes como são estes dias finais de gravidez. Estou cansada… - e com contrações, e a dilatar… - Mas prometo que vou tentar não adormecer! – gracejou, tendo a certeza que coisa que não faria nas próximas horas era dormir.
- Eu vou pensar em vocês – prometeu com sinceridade.
- Vê é se marcas um golo para nós! – desafiou com humor.
- Prometo que vou tentar. Bem, agora tenho de ir. Vamos para o autocarro.
- Vale. Besazo. Te amo.
- Te amo, mi reina. Se puder volto a ligar.
- Vale. Buena suerte!
- Gracias, mi amor. Hasta luego.
- Hasta luego – disse num suspiro já depois de desligar.


***

21h15

Pela primeira vez, Ana gritou. Havia algo de muito libertador em gritar.
50 segundos, dolorosos e penosos 50 segundos de contração. Estava extenuada. Mas não tinha tempo para isso. Dali a minutos viria outra contração.
Respirou fundo e tentou não pensar nisso. Por enquanto, iria sentar-se (se conseguisse) no sofá a ver o jogo.
O estádio cantava o hino. Era arrepiante. 65 mil pessoas a cantar praticamente à capella (já que o volume das suas vozes abafava por completo a música) era inevitavelmente emocionante.
Javi aparecia na imagem. Estava no banco de pé, maravilhado a olhar as bancadas, com um sorriso encantado a torcer-se nos seus lábios. Havia inúmeros cartazes a desejar-lhe as boas-vindas e ele já tivera tempo para dar uns quantos autógrafos e distribuir alguns sorrisos para as fotografias.
Inevitavelmente Ana sorriu e sentiu uma enorme força crescer dentro de si.
Se tivesse ligado a Javier, ela poderia estar numa cama de hospital, confortável sob o efeito da epidural, esperando calmamente o momento de ter Inés nos braços. Mas isso não valia a pena comparado à felicidade que ela via no rosto de Javier. Ele voltara a casa. Esperara tanto. Merecera tanto. Ana aguentava. Milhões de mulheres já tinham aguentado, ela também aguentaria.
- Vamos ficar bem, pequeña… - murmurou acariciando levemente o seu ventre.


***

22h15
Ana tornou a gritar desta vez a plenos pulmões. Assim que a contração se dissipou, as lágrimas escorreram pelo seu rosto. Não eram lágrimas de dor, ou melhor, não eram apenas de dor. Era o acumular de todas as emoções regadas a um cansaço inédito. Tinha dormido mal na noite anterior e já estava com contrações havia 12 horas. Para além disso, o medo insistia em persegui-la. Havia momentos em que se sentia bem, segura, confiante, esperançosa; mas havia outros… havia outros momentos, momentos em que ela apenas desejava ter Javier junto a ela. Javier e apenas Javier. Ao longo daquelas horas, pensara em ligar a outra pessoa para que a acompanhasse em segredo sem que Javi soubesse, mas percebeu rapidamente que isso não lhe trazia conforto algum. Era como se preferisse estar sozinha a estar com alguém que não Javier.
Ana imaginara aquele momento milhares de vezes. Curiosamente, pensara mais no parto na primeira metade da gravidez do que na segunda. Javi estava em coma e imaginar o parto com ele junto a si parecia mais um desejo de uma vida do que um plano.
Olhou a televisão. Começava a 2ª parte. O resultado era um confortável 4-0 que deixava as bancadas muito satisfeitas.
Não tardou muito para que os adeptos se manifestassem em alto e bom som. Ana aumentou o volume da televisão para saber o que estava a acontecer.
- Javi García acabou de saltar para o aquecimento, Hélder – informou o jornalista que estava junto ao campo.
- É merecida esta ovação. Recordemos que Javi García sofreu um acidente há 8 meses e esteve em coma durante 96 dias. Teve um processo de recuperação muito complicado mas está de volta. E é um jogador sempre muito útil no plantel.
- É verdade – concordou o comentador que acompanhava o relatador – Javi García é um trinco puro. As suas abordagens são sempre muito simples e eficientes. É um autêntico muro na defesa. É muito bom que ele consiga jogar ainda alguns minutos esta época.
Ana sorriu com um orgulho a florescer no seu peito. Javi aparecia na imagem em passo de corrida, acompanhado por um dos membros da equipa técnica.
Aos 60 minutos, o teu aguardado momento.
- É agora, é agora – murmurou Ana de olhos pregados na televisão.
- Sai com o número 5, Ljubomir Fejsa – anunciou o speaker, arrancando aplausos do público, enquanto Fejsa corria até à linha onde Javier se encontrava, onde o saudou com um abraço sentido – Entra com o número 6, Javi García! – completou o speaker, enquanto Javi corria para dentro de campo, sob uma enorme ovação dos adeptos que se colocaram de pé.
Ana sentiu as lágrimas correrem alegremente pelo seu rosto.
- Gracias – murmurou erguendo o olhar.
Era um obrigado especial, era dedicado à sua avó Inés. Tinha a certeza que ela estava algures a olhar por ela e a torcer por eles.
Até que os 90 minutos chegassem, Ana sentiu intensas e prolongadas contrações. Quanto à dor…Ana não sabia se era por estar a olhar apaixonadamente a televisão ou por já sentir dores há horas, mas naquele momento a dor já nem parecia real. Por vezes, sentia-se quase flutuar, tudo lhe parecia surreal.
- Vamos, acaba o jogo – implorou Ana, ansiosa pelo fim do encontro e pelo regresso de Javier.
Tinham sido dados 4 minutos de compensação (o que Ana julgava ridículo visto que o resultado estava num mais do que confortável 6-1) e havia agora um canto a favor do Benfica.
As “torres” da equipa subiam à grande área adversária, nomeadamente Javi.
- Vamos, despachem isso – suplicou Ana, não conseguindo ver mais bola à sua frente. As contrações estavam horríveis.
O canto foi batido para o centro da grande área, onde surgiu Javier a subir mais do que todos os outros, cabeceando a bola para o fundo das redes.
- Gol gol gol, por Dios! – festejou Ana, saltando do sofá e sentindo as suas pernas ficarem instantaneamente molhadas.
Olhou para o chão assustada.
- Mierda – murmurou.
As águas tinham rebentado.

***

Ana sentiu as lágrimas rolarem pelo seu rosto. Por incrível que parecesse, não eram lágrimas de dor, mas de tristeza e medo.
Ela estava nos derradeiros momentos do seu parto. Sozinha.
Por bizarro que soasse, Ana idealizara aquele momento, tal como se idealiza um casamento, uma viagem, um marco especial. Não idealizara a ausência de dores ou a rapidez do parto, idealizara simplesmente um parto tranquilo, junto a Javi. Não pedira mais nada. Apenas um parto sem complicações com Javier bem a seu lado. Imaginava as batas verdes, as vozes da equipa médica, o som das máquinas que a monitorizariam, a voz da parteira a pedir-lhe que fizesse força ao seu sinal, Javi a segurar-lhe na mão tal como prometera…
Mas nada disso acontecera. Ao invés disso, Ana estava no chão da sala, encostada ao sofá, sem comer havia horas, sem equipa médica, sem parteira, sem Javi.
Javier estava algures na grande Lisboa a tentar voltar para casa. E Ana quase que aceitara o facto de que assim seria: só ela e Inés.
Limpou as lágrimas bruscamente e adotou uma posição que ela sentia que seria mais confortável. Dentro de segundos chegaria uma nova contração e ela não iria conter a vontade de fazer força como fizera da última vez.
- Somos tu e eu, princesa. Afinal somos as únicas que não podem faltar de forma nenhuma, não é? – murmurou olhando o seu ventre, que segundos depois se voltou a contrair intensamente.

***

Javier estava nas nuvens. Não podia ter pedido regresso melhor.
Tivera meia hora de jogo, sentira-se muito bem em campo e tivera ainda a oportunidade de marcar um golo. Era tão bom que parecia um sonho.
No final do jogo, prestara declarações à imprensa antes de subir até aos camarotes onde os seus pais, bem como Andrés o esperavam. Ainda assim, fora breve. Estava com imensas ganas de chegar a casa e festejar junto a Ana.
Antes de sair do estádio, enviou uma mensagem a Ana dizendo-lhe que estava a caminho de casa, ficando sem resposta. Poderia apostar que ela tinha adormecido. Não a podia censurar. As últimas semanas tinham sido muito desgastantes para ela.
Assim que chegou a casa, estacionou o carro na garagem e subiu tentando ser silencioso.
Contudo, assim que chegou ao andar superior pôde ouvir um grito de Ana. Não era um grito de dor ou susto, era como…um grito de força. O seu coração acelerou, parecendo subir-lhe à boca. Javi correu na direção do grito, acabando por encontrar Ana no chão da sala, completamente transpirada, com uma expressão de fatiga e dor a pintar-lhe o rosto.
- Ana… - murmurou assustado, ajoelhando-se junto a ela – O que é que se passa?
- Por Dios, chegaste, tu chegaste – disse em lágrimas desta vez de alegria, passando atrapalhadamente as suas mãos pelo rosto de Javier, quase querendo confirmar que ele estava mesmo ali.
- Sim, cheguei. O que está a acontecer? Estás a entrar em trabalho de parto?
- Eu entrei em trabalho de parto há 17 horas, Javier.
- Tu o quê? Por Dios, vamos para o hospital já!
- Não há tempo, Javi.
- O quê? Como assim não há tempo? São 30 minutos, Ana, claro que há tempo.
- Javi, provavelmente eu não tenho sequer 3 minutos.
- Eu vou chamar uma ambulância – disse de imediato, pegando no telemóvel e ligando para as emergências que lhe prometeram uma ambulância o mais rápido possível – Já está. Eles vão chegar cá num instante. Mantém-te calma – pediu, agarrando as suas mãos.
- Javier, eles não vão chegar a tempo – disse lentamente, mostrando a sua fatiga – Vais ter de ajudar-me.
A segurança com que Ana falava fez Javi perceber que realmente não haveria tempo para que a ajuda chegasse. Teriam de fazê-lo os dois.
- Vale, eu ajudo-te. Claro que te ajudo. O que precisas que faça? – disponibilizou-se.
- Vai buscar algumas toalhas – pediu, vendo Javi atender o seu pedido em segundos.
Estendeu as toalhas à volta e por baixo de Ana, aproveitando também para limpar-lhe o rosto com alguma água. Depois despira-a como ela lhe pedira, para finalmente lavar as mãos o melhor possível acabando por voltar para junto dela.
- Eu já fiz força algumas vezes e já a senti descer. A próxima contração está mesmo quase a chegar.
- O que precisas que faça?
- Não a puxes, ok? Apenas…segura nela.
- Vale… - assentiu Javi, sentindo-se tremendamente assustado.
- É agora – avisou Ana, sentindo a contração aproximar-se bem como aquela necessidade instintiva de fazer força.
Instinto… De repente, era tudo o que restava.
- Por Dios… - murmurou Javier, vendo Ana olhá-lo de forma reprovadora. Sabia bem que a visão que ele estava a ter não seria certamente idílica, mas ela não estava muito melhor – Não é isso! – garantiu Javi, percebendo de imediato o que Ana estava a pensar – A cabeça já se vê – explicou, dando a Ana uma força extra que ela não podia explicar de onde vinha, como ainda existia.
A vontade de fazer força chegou mais intensa do que nunca e Ana deixou-se levar: puxou e puxou, várias vezes durante aquela contração.
- A cabeça está a sair, mi amor. Vamos, vamos – incentivou Javi, repentinamente embrenhado no momento.
Não era assim que imaginara, mas naquele instante sentia-se exatamente onde deveria estar. E apesar de saber que não tinha conhecimentos alguns sobre o que deveria ou não fazer, a verdade é que algo dentro de si gritava que tudo iria correr bem.
- A cabeça já está fora e os ombros já estão a passar –  disse Javi rapidamente – Se puxares mais uma vez deve ser suficiente.
- Eu vou tentar.
- Eu sei que consegues, mi cielo. Aos três? – perguntou olhando-a, tentando a todo o custo dar-lhe mais uma réstia de força que ele instintivamente percebia que não era fácil de pedir – Uno, dos, tres! – contou, vendo Ana puxar uma vez mais, fazendo o corpo de Inés deslizar para as mãos de Javier.
De um momento para o outro, a única coisa que preenchia aquela sala era o choro de Inés, que exibia com orgulho os seus belos pulmões.
As lágrimas correram pelo rosto de Javier que ficara sem palavras. Ela era tão pequenina… Estava rosada e tinha algumas “manchas” brancas sobre o cabelo. Tinha uma cabeleira farta para recém-nascida. Os seus cabelos eram bem negros tal como os de Ana.
Ana…Ana estava em lágrimas quase sem conseguir acreditar no que acontecera. Inés estava mesmo ali, nos braços de Javier que a ajudara a dar à luz.
- O que faço ao cordão? – perguntou Javi após aqueles segundos de transe onde a única coisa que existia para ele era Inés.
- Nada. Não o cortes, nem o puxes. Vê se consegues encostá-la a mim – pediu, vendo Javier aproximar-se dela, acabando por pousar Inés sobre o seu peito.
Ana ajeitou Inés ao som do seu belíssimo choro, choro esse que cessou assim que Ana direcionou a sua boca para o seu seio, onde ela começou a mamar com vontade.
Javi sentou-se junto a elas, sentindo Ana encostar a cabeça no seu ombro. Ela estava exausta, mas extremamente feliz. Inés era perfeita. Observavam-na a mamar atrapalhadamente, mas ainda assim claramente satisfeita.
- Te quiero tanto, mi vida – sussurrou-lhe.
- Yo tambien te quiero, Javier. Gracias…



TCHAAARANN!!!
Era assim que imaginavam este parto? Acho que não!
Mas cá está ele e eu espero como sempre as vossas opiniões.
(E se calhar ainda vou escrever outro capítulo da Give antes de voltar à Quando. Não sei. Digam-me o que preferem!)

Besazo
Ana Santos

P.S. Um enorme obrigada à Diana Ferreira pela sua preciosa ajuda na revisão deste capítulo e pelos grandes momentos passados este verão! Te quiero <3